O filme tem sido um sucesso mundial. Boa trilha sonora que mistura pops antigos e atuais e passa obrigatoriamente por autores barrocos, os preferidos dos bem de vida (pelo menos é assim que costumeiramente entende o cinema). O grande achado do filme é o ator negro Omar Sy de 34 anos e francês de nascimento. Ganhador do César de melhor ator em fevereiro deste ano. A primeira vez que é concedido a um ator negro e batendo nada mais nada menos que Jean Dujardin que já havia ganho o Oscar de melhor ator no filme "O Artista". A sua interpretação "natural" do personagem Driss, um imigrante senegalês é tocante. E é sobre essa disparidade, essa comparação da vida dos marginalizados e dos ricos na Paris de hoje, de que trata o filme. O cinema adora fazer essas comparações, mostrar esse tipo de contraste. E aqui temos ainda o "saber do coração" e o "saber da mente" ou, se preferem, a comparação entre o modo de vida natural e sem convenções com o modo de vida convencional e regrado dos bem educados.
Esse "saber do coração" como algo superior ao "conhecimento acadêmico" é um preconceito da sociedade moderna que supõe a forma "natural e bruta" de se viver como melhor em relação à educação formal. Isso se deve, em parte à falência econômica atual e aos riscos inerentes ao capitalismo descontrolado, e portanto "artificial" (e talvez desumano) em que a sociedade ocidental se meteu. É uma espiação e uma procura por saídas diferentes das apresentadas pela "academia". A família do Driss vive num mundo onde parece que todos são muito cientes do seu papel e até felizes. Ingenuidade à parte, agem na verdade na única forma que suas existências permitem na periferia da sociedade parisiense: com a necessária brutalidade que os imigrantes senegaleses conseguem ter num mundo capitalista. A "naturalidade" é na verdade um recurso de sobrevivência e ela está mais próxima da hostilidade já que a educação acadêmica não é acessível e lhes tiraria até as armas da sobrevivência. Restaria a eles muito pouco ou nada se fossem civilizados e vivendo naquele ambiente em que estão inseridos.
Mas o "educado formal" vive em outro ambiente e em outra vida sem as ameaças cotidianas em que vivem os imigrantes marginalizados. Para o bem nascido essa "brutalidade natural" tem um sabor de novidade, uma altivez inesperada e com uma graciosidade até. Chega a ser divertido. Como, imagino, eram os índios trazidos por Colombo nas cortes europeias O educado está sempre atrás de novidades, porque a sua mente aprendeu que pode mais quando sabe mais. Diferente do deseducado em que a novidade só tem interesse dentro dos parcas dimensões da sua formação. Onde Berlioz só pode ser o rapper, Vivaldi só pode ser música de propaganda, carrão potente só pode ser usado se for para correr no limite, e assim vai. Para o educado essa espontaneidade inocente e ingênua pode até movê-lo para além da sua imobilidade causada pelo excesso nas regras do bom comportamento. Como na falta de virilidade para lidar com o caso platônico e epistolar. Nesse quesito a virilidade é algo que não falta ao senegalês, coisa que a sua vida exige a todo momento.
O filme já faturou mais que 300 milhões de dólares com mais de 20 milhões de ingressos vendidos pelo mundo afora e é a segunda maior bilheteria francesa de todos os tempos (atrás de "Amélie" de 1994 que vendera 23 milhões de ingressos).
Direção: Eric Toledano e Olivier Nakache (que ainda escrevem o roteiro)
Atores: François Cluzet (Phillipe) o milionário
Omar Sy (Driss) o imigrante senegalês
Andrey Fleurot (Magalie) a secretária de Phillipe
Anne Le Ny (Yvonne) a enfermeira de Phillipe
