sábado, 13 de outubro de 2012

"INTOCÁVEIS" França (2011) original: "Untouchables"


O filme tem sido um sucesso mundial. Boa trilha sonora que mistura pops antigos e atuais e passa obrigatoriamente por autores barrocos, os preferidos dos bem de vida (pelo menos é assim que costumeiramente entende o cinema). O grande achado do filme é o ator negro Omar Sy de 34 anos e francês de nascimento. Ganhador do César de melhor ator em fevereiro deste ano. A primeira vez que é concedido a um ator negro e batendo nada mais nada menos que Jean Dujardin que já havia ganho o Oscar de melhor ator no filme "O Artista". A sua interpretação "natural" do personagem Driss, um imigrante senegalês é tocante. E é sobre essa disparidade, essa comparação da vida dos marginalizados e dos ricos na Paris de hoje, de que trata o filme. O cinema adora fazer essas comparações, mostrar esse tipo de contraste. E aqui temos ainda o "saber do coração" e o "saber da mente" ou, se preferem, a comparação entre o modo de vida natural e sem convenções com o modo de vida convencional e regrado dos bem educados. 

Esse "saber do coração" como algo superior ao "conhecimento acadêmico" é um preconceito da sociedade moderna que supõe a forma "natural e bruta" de se viver como melhor em relação à educação formal. Isso se deve, em parte à falência econômica atual e aos riscos inerentes ao capitalismo descontrolado, e portanto "artificial" (e talvez desumano) em que a sociedade ocidental se meteu. É uma espiação e uma procura por saídas diferentes das apresentadas pela "academia". A família do Driss vive num mundo onde parece que todos são muito cientes do seu papel e até felizes. Ingenuidade à parte, agem na verdade na única forma que suas existências permitem na periferia da sociedade parisiense: com a necessária brutalidade que os imigrantes senegaleses conseguem ter num mundo capitalista. A "naturalidade" é na verdade um recurso de sobrevivência e ela está mais próxima da hostilidade já que a educação acadêmica não é acessível e lhes tiraria até as armas da sobrevivência. Restaria a eles muito pouco ou nada se fossem civilizados e vivendo naquele ambiente em que estão inseridos. 

Mas o "educado formal" vive em outro ambiente e em outra vida sem as ameaças cotidianas   em que vivem os imigrantes marginalizados. Para o bem nascido essa "brutalidade natural" tem um sabor de novidade, uma altivez inesperada e com uma graciosidade até. Chega a ser divertido. Como, imagino, eram os índios trazidos por Colombo nas cortes europeias  O educado está sempre atrás de novidades, porque a sua mente aprendeu que pode mais quando sabe mais. Diferente do deseducado em que a novidade só tem interesse dentro dos parcas dimensões da sua formação. Onde Berlioz só pode ser o rapper, Vivaldi só pode ser música de propaganda, carrão potente só pode ser usado se for para correr no limite, e assim vai. Para o educado essa espontaneidade inocente e ingênua pode até movê-lo para além da sua imobilidade causada pelo excesso nas regras do bom comportamento. Como na falta de virilidade para lidar com o caso platônico e epistolar. Nesse quesito a virilidade é algo que não falta ao senegalês, coisa que a sua vida exige a todo momento.

O filme já faturou mais que 300 milhões de dólares   com mais de 20 milhões de ingressos vendidos pelo mundo afora e é a segunda maior bilheteria francesa de todos os tempos (atrás de "Amélie" de 1994 que vendera 23 milhões de ingressos). 

Direção: Eric Toledano e Olivier Nakache (que ainda escrevem o roteiro)
Atores: François Cluzet (Phillipe) o milionário
              Omar Sy (Driss) o imigrante senegalês
              Andrey Fleurot (Magalie) a secretária de Phillipe
              Anne Le Ny (Yvonne) a enfermeira de Phillipe     

4 comentários:

  1. Gostei muito desse filme!
    Omar Sy, o ator que faz o papel do imigrante senegalês que encontra emprego na casa do milionário Phillipe (François Cluzet), foi "o achado", fantastico em seu desempenho!!
    Filme "alegre" (belíssima trilha sonora), apesar do assunto girar em torno de uma pessoa "tetraplégica", com dificuldades próprias da situação!
    O contrarte entre culturas e nivel sócio econômico, bem como a questão dos "saberes, formal e dito "do coração", foi exposto de forma interessantíssima...
    Vale a pena assistir!

    Jacqueline

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    1. E o cinema é exatamente isso: diversão! "That's entertainment", no velho ditado hollywoodiano. E "There's no business like show-business!". Outra máxima americana, desta vez da Broadway. Eles ensinaram o resto do mundo a fazer cinema, embora tenha sido uma invenção francesa. E é interessante constatar como os franceses aprenderam a lição. Bons professores que foram e melhores discípulos tiveram. Ou a gente não reaprende nessa vida?

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    2. Aprendemos e reaprendemos ... sempre!!!!
      Tudo isso é muito legal, sabe, o cinema, a vida...
      É isso!

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